EMPREENDEDORISMO
Mães da Mangueira transformam óleo usado em renda, cuidado e exemplo para os filhos
Na comunidade da Mangueira, na Zona Norte do Rio, a maternidade, o sustento e a profissão de diversas mulheres se cruzam com sustentabilidade, geração de renda e transformação social. À frente da produção de sabão ecológico biorremediador, feito a partir do reaproveitamento de óleo de cozinha usado, nove mulheres da comunidade, entre elas mães da Mangueira, vêm ressignificando o destino de resíduos, suas próprias trajetórias e as de suas famílias.
São elas as responsáveis por todas as etapas do processo produtivo: da triagem e filtragem do óleo à produção de ecosabões, detergentes e lava-roupas, passando pela operação de equipamentos, controle de qualidade e logística das Estações de Tratamento Comunitário.
A iniciativa integra as ações do Instituto Singular Ideias Inovadoras, por meio do projeto Omìayê, que atua na promoção da economia circular e da educação ambiental no território. No centro desse processo estão mães que encontram no projeto uma oportunidade de trabalho, autonomia financeira e maior presença na vida dos filhos.
Desde o início da operação, os resultados ambientais ajudam a dimensionar o impacto da iniciativa. Já foram coletados mais de 6.600 litros de óleo de cozinha usado, evitando a poluição de mais de 164 milhões de litros de água, o equivalente a cerca de 66 piscinas olímpicas. A partir desse processo, foram produzidos mais de 7.000 quilos de sabão ecológico, capazes de tratar mais de 6,5 milhões de litros de esgoto.
Também foram fabricados cerca de 1.600 litros de produtos líquidos, como detergente e lava-roupas, que contribuem para o tratamento de mais de 1,5 milhão de litros de efluentes, um volume próximo a 600 caixas d’água residenciais. Somam-se ainda mais de 103 mil litros de microrganismos aplicados, com capacidade de tratar aproximadamente 320 milhões de litros de esgoto.
Mais do que uma atividade produtiva e de conscientização ambiental, o trabalho desenvolvido na ecofábrica local impacta diretamente a dinâmica familiar. Ao atuar dentro da própria comunidade, essas mulheres reduzem o tempo de deslocamento, ampliam o convívio com os filhos e passam a participar mais ativamente do cotidiano doméstico, sem abrir mão da geração de renda.
Esse equilíbrio entre trabalho e maternidade se reflete na organização da rotina e na forma como essas mulheres são reconhecidas dentro de casa. Para muitos filhos, o trabalho das mães no projeto se torna motivo de orgulho e referência de responsabilidade, cuidado e consciência ambiental. Uma dessas histórias é a de Monique Feliciano, 32 anos, que atua no processo de produção do sabão:
“Minha vida sempre foi marcada por muitas dificuldades. Já trabalhei em uma fábrica de bolos, mas era muito longe de casa e eu dependia da ajuda do meu marido para cuidar dos nossos filhos. Com o tempo, percebi que não estava conseguindo acompanhar o crescimento deles e decidi voltar para a Mangueira, que sou cria. Mas perder meu marido mudou tudo. Me vi sozinha, responsável por sustentar a casa e criar dois filhos. Foi aí que o projeto entrou”, afirma.
Hoje, ela vê a transformação na prática: “Quando comecei, foi muito desafiador aprender um trabalho novo e ter que ser pai e mãe ao mesmo tempo. Pensei em desistir algumas vezes, mas sempre que olho para os meus filhos eu me fortaleço. Eles sabem com o que eu trabalho e dizem que têm orgulho de mim. Aqui eu tenho trabalho e tempo de qualidade para estar presente na vida deles.”
Já para Richelle Miranda da Costa, de 19 anos e auxiliar de produção na ecofábrica, o projeto representa uma oportunidade de aprendizado e construção de futuro:
“Entrei no projeto por meio do Meninas e Mulheres do Morro. Quando me chamaram, eu vi como uma oportunidade de aprender, de ter uma profissão e construir algo pra mim. É um conhecimento que eu levo pra vida”, conta.
Mãe de um menino de três anos, ela diz que o trabalho também começa a fazer parte da relação com o filho:
“Ele ainda é pequeno, mas já sabe que eu trabalho. Às vezes pergunta onde eu estou, e eu falo que estou no trabalho. Acho que, mesmo sem entender tudo, ele já vai crescendo vendo isso, sabendo que a mãe dele está correndo atrás.”
Além do impacto social, a iniciativa contribui diretamente para a preservação ambiental. O óleo de cozinha usado, que poderia contaminar milhares de litros de água se descartado de forma inadequada, é reaproveitado na produção de itens de limpeza distribuídos na própria comunidade, fortalecendo práticas sustentáveis no território.
Para Jéssica Delgado, Coordenadora Administrativa do projeto Omìayê, a transformação vai além do trabalho:
“Quando conheci essas mulheres, no início do projeto, muitas estavam desacreditadas delas mesmas, desmotivadas pelas dificuldades e pelas barreiras no mercado de trabalho. Hoje, vemos uma transformação real. Elas estão mais confiantes, mais dinâmicas e capazes de atuar em todas as etapas da produção. Esse processo também resgata a autoestima e a crença no próprio potencial”, declara.
Ela destaca ainda o impacto dentro das famílias: “Os filhos acompanham essa mudança. Eles conhecem o trabalho das mães, já vieram à fábrica e veem de perto essa transformação. Isso tem um valor enorme, porque essas mulheres passam a ser referência dentro de casa, como mães, como profissionais e como exemplo. O projeto transforma o território, mas, antes de tudo, transforma a vida dessas mulheres.”
No Dia das Mães, o Projeto Omiayê e a experiência da Mangueira evidencia como iniciativas locais podem promover mudanças profundas a partir do fortalecimento das mulheres. Ao unir geração de renda, educação ambiental e protagonismo feminino, o projeto mostra que o cuidado, com a casa, com os filhos e com o território, também pode ser uma ferramenta de transformação social.

Social
Inscrições para o programa Família Acolhedora seguem até 30 de junho em Palmas
Serviço oferece acolhimento temporário a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Bolsa-auxílio de um salário mínimo é garantida para cada acolhido.
A Prefeitura de Palmas, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (Sedes), mantém abertas as inscrições para o Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora (SFA). A iniciativa oferece acolhimento temporário em ambiente familiar a crianças e adolescentes que, por determinação judicial, precisam ser afastados da família de origem para garantir sua proteção.
As inscrições vão até o dia 30 de junho e podem ser feitas de forma online ou presencialmente na Sedes, localizada na Avenida LO-01, Quadra ACSE 1 (104 Sul), Conjunto 4, Lote 34.
Como funciona o programa
O acolhimento é uma medida de proteção prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e tem caráter temporário, permanecendo apenas até a definição da medida mais adequada para cada caso, pelo prazo máximo de 18 meses.
O programa garante uma bolsa-auxílio no valor de um salário mínimo para cada criança ou adolescente acolhido.
Quem pode participar
Para participar, não é necessário ser casado ou ter filhos. Os interessados devem atender aos seguintes requisitos:
- Residir no município de Palmas;
- Ser maior de 21 anos, sem restrição de gênero ou estado civil;
- Ter, no mínimo, 16 anos de diferença de idade em relação à criança ou adolescente acolhido;
- Comprovar boas condições de saúde física e mental;
- Não apresentar problemas com uso de substâncias psicoativas.
Além disso, é necessário apresentar Declaração de Desinteresse em Adoção, comprovando que não possui interesse na adoção da criança ou adolescente participante do Serviço de Acolhimento em Famílias Acolhedoras, e comprovar que não possui cadastro no Sistema Nacional de Adoção (SNA), entre outros critérios que constam no edital.
Acompanhamento e orientação
Durante todo o processo, as famílias recebem acompanhamento da equipe técnica da Sedes, com orientação profissional, capacitação contínua e suporte especializado.
Na terça-feira, 10 de junho, as famílias inscritas participaram de um encontro de orientação sobre o funcionamento do programa, momento de troca de experiências e esclarecimento sobre o processo de acolhimento.
“Esses momentos são necessários para o repasse de todas as diretrizes do serviço e para apresentar a equipe da Secretaria que lidará diretamente com a família e a criança acolhida durante todo o processo, desde a inscrição até o encerramento do acolhimento”, afirmou a superintendente de Proteção Social Especial da Sedes, Marlucy Albuquerque.
Depoimento de família participante
Entre as famílias participantes do encontro estava a de Eslany Lima, que decidiu integrar o serviço motivada pelo desejo de contribuir com a vida de crianças e adolescentes.
“Já era um projeto de vida fazer algo que pudesse transformar a vida de alguém. Estou muito feliz por fazer parte desse momento e ser uma das primeiras famílias acolhedoras do programa em Palmas. Quero acolher com amor, cuidado e contribuir de forma positiva na trajetória dessa criança ou adolescente”, compartilhou.
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